Morreu o maestro e compositor Ennio Morricone

O compositor Ennio Morricone morreu esta segunda-feira numa clínica onde estava internado na sequência de uma queda. O conceituado compositor de bandas sonoras, que chegou a ganhar dois prémios Óscar, tinha 91 anos.Morricone compôs a banda sonora de mais de 400 filmes, entre os quais “Cinema Paraíso”, “O Bom, o mau e o vilão” ou “Por um punhado de dólares”. O seu nome ficou, porém, fortemente associado ao do diretor Sergio Leone, com quem trabalhou no clássico “Era uma Vez na América”.
O seu trabalho valeu-lhe um prémio Óscar honorífico em 2006 e outro de Melhor Banda Sonora dez anos depois, em 2016, pelo tema de “Os Oito Odiados”, do realizador Quentin Tarantino.
Quando convidado para compor a melodia do filme de Tarantino, Morricone começou por recusar a proposta. Mais tarde acabou por aceitar, desde que o realizador lhe permitisse “uma total rutura com o estilo de filmes de faroeste” que tinha escrito 50 anos antes.

Venceu ainda Globos de Ouro, Grammys e prémios BAFTA. Ainda no mês passado tinha recebido o prémio Princesa das Astúrias das Artes, juntamente com o também compositor John Williams.

Ennio MMorricone e Dulce Pontes na Arena de Verona 2012

Trabalhou em quase todos os géneros do cinema, do terror à comédia, passando pelo faroeste, e algumas das suas melodias tornaram-se mais conhecidas do que os filmes em si.
Utilizava muitas vezes instrumentos não convencionais nos seus temas, tais como a harpa do judeu, harmónica, trompetas mariachi, corne inglês ou ocarina. As suas músicas eram habitualmente acompanhadas por sons reais como assobios, chicotes ou tiros.
“As pessoas estão paradas no tempo”
Sempre tentou que o público não o associasse exclusivamente aos filmes de faroeste, relembrando várias vezes que teve uma vida criativa em muitas outras áreas antes e depois dos filmes nos quais trabalhou com o realizador Sergio Leone.

“Não percebo como, depois de todos os filmes que fiz, as pessoas continuam a pensar no ‘Por um punhado de dólares’. As pessoas estão paradas no tempo, há 30 anos”, lamentou o Maestro, como era conhecido em Itália, à agência Reuters em 2007.

“A minha produção para filmes de faroeste é talvez uns 7,5 ou 8 por cento do total de coisas que eu fiz”, acrescentou na altura.
Entre os filmes de outros géneros que contaram com a participação de Morricone está “A Missão”, de 1986, que valeu ao compositor um Globo de Ouro e uma nomeação para um Óscar. Para acompanhar a história das missões jesuítas no século XVIII na América do Sul, Morricone utilizou coros litúrgicos ao estilo europeu e tambores, misturando o mundo novo e o mundo antigo.Ennio Morricone compôs também os temas dos filmes “Os Intocáveis”, de Brian de Palma, “Bugsy”, de Barry Levinson, e “O Longo Silêncio”, de Margarethe von Trotta.

O prestigiado compositor morreu em Roma, depois de ter partido o fémur numa queda, de acordo com a agência de notícias Ansa.

O funeral celebrar-se-á em privado, para respeitar “o sentimento de humildade que sempre inspirou a todas as pessoas desde a sua existência”, anunciou a família através do advogado Giogio Assumma.

Num comunicado enviado aos meios de comunicação, pode ler-se que Morricone faleceu “ao amanhecer de 6 de julho”, depois de se despedir da sua esposa Maria, que o acompanhou durante toda a vida profissional e que lançou agora um “agradecimento ao público, cujo apoio carinhoso foi sempre a força da criatividade” do compositor.Recusou mansão na Califórnia: “Roma é a minha casa”
Nascido em Roma em 1928, Morricone aprendeu música com o seu pai, que tocava trompete em pequenas orquestras. Entrou no conservatório aos 12 anos, onde seguiu as pegadas do progenitor e aprendeu trompete. Mais tarde foi escolhido para integrar a orquestra da prestigiada Academia de Santa Cecília.

Começou por compor para o teatro e para programas de rádio, tornando-se depois técnico de estúdio para editoras discográficas, cargo que lhe permitiu trabalhar com algumas das estrelas da música pop mais conhecidas de Itália nas décadas de 1950 e 1960.

Foi o compositor-fantasma de vários filmes antes de receber crédito pela primeira vez pelo tema de “Il Federale”, de Luciano Salce, em 1961.

O seu sucesso com o realizador Sergio Leone, que tinha sido seu colega de escola, tornou-o um dos compositores mais desejados para as bandas sonoras de clássicos do cinema, com realizadores de todo o mundo a baterem-lhe à porta: John Huston, John Boorman, Terrence Malick, Bernardo Bertolucci e Barry Levinson são alguns dos exemplos.

Morricone chegou a admitir que o seu grande arrependimento era nunca ter trabalhado com o realizador Stanley Kubrick. “Ele pediu-me para fazer o tema do ‘Laranja Mecânica’ e eu disse que sim. Depois ligou a Leone, que lhe disse que eu estava ocupado a trabalhar com ele. Nunca mais telefonou”, contou numa ocasião.

Um dos poucos italianos que se tornaram lendas de Hollywood sem nunca terem lá vivido, Morricone chegou a revelar que um estúdio norte-americano lhe ofereceu uma vez uma habitação luxuosa na Califórnia, mas que o próprio recusou.

“Todos os meus amigos estão aqui, assim como muitos realizadores que gostam de mim e que apreciam o meu trabalho”, explicou. “Roma é a minha casa”.

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c/ agências

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