As invasões francesas – O povo de Amarante contra o General « Maneta» – Artigo do Engº Paulo Barreira


General Loison

     Loison ficou conhecido no imaginário popular associado à expressão «O Maneta», não pelo facto de lhe faltar um braço, mas pelo que significava de violência e crueldade sobre aqueles que estavam sujeitos às suas sevícias.

     A expressão « ir para o maneta »significa ir para a tortura , para a morte,ou ser vítima de roubos e extorsões ; « este foi para o maneta», ainda hoje se diz ,tal era a fama do bárbaro Loison , de índole sanguinária, que saqueava e torturava tudo e todos por onde passava , não respeitando nem a idade nem o género .

      No dia  17 de Junho de 1808 , o  general francês , Conde de Loison, partiu de Almeida  com a  ordem de ocupar  a cidade do Porto, passou por Moimenta e  Lamego e chegou à Régua  dia 21.Preparou-se  nessa manhã para aboletar em Mesão Frio, com as suas tropas , não  sem antes mandar a guarda avançada pela « estrada pombalina» de Mesão Frio  para Amarante  , para reconhecimento da região.

     Dois dias antes , em 19, já tinha chegado a  Vila Real , ao então Tenente- Coronel Francisco da Silveira , a notícia da ida de Loison a caminho do Porto.Nesse mesmo dia , Silveira preparou duas colunas para atacar as tropas de Loison – uma na passagem  do rio Douro, comandada  pelo capitão –mor Manuel de Mesquita Pimentel e Castro , e outra na estrada para Amarante , na zona do Alto dos Padrões de Teixeira , comandada pelo próprio Silveira . Entretanto, a partir de Braga,  e de  Guimarães , avançaram   colunas para se opor à progressão de Loison. Também, em Amarante, se organizou uma força constituída pelos principais da terra, pelos ordenanças locais , muitos populares chamados pelos sinos, a que se juntaram forças dos concelhos vizinhos  de Gestaço e de Gouveia  e que se reuniram no terreiro de São Gonçalo , junto à ponte .O entusiasmo atingiu o auge,  quando José Taveira de Carvalho Pinto de Meneses , da Casa da Calçada  e Calvário , e Francisco Xavier Ferreira de Sousa Gavião Pessoa  e seu filho   José, da Quinta de Novios e de Lama, pessoas proeminentes da sociedade amarantina , apareceram com os chapéus ornados de fitas azuis e brancas, as  cores da monarquia portuguesa,  em reação às insígnias tricolores dos invasores franceses. Logo as pessoas da terra, que estavam na frente do levantamento , exigiram ao Juiz de Fora de Amarante  Dr Teixeira Girão, que pedisse auxílio  à Junta do Porto e  ao Tenente-Coronel Francisco da Silveira . Mas o conhecido Juiz de Fora de Amarante não pretendia ceder às ordens para pedido de  ajuda, por recear Loision. Acabou por fazê-lo , perante a forte reação da população, que quase o agrediu ,e pressionado por Luís de Macedo da Cunha Coutinho que lhe disse, « a bem ou a mal teria de o fazer».

       Mas, voltemos  ao teatro das operações militares.No dia 21 , em Mesão Frio , em Padrões da Teixeira, as tropas do General «Maneta» foram confrontadas, quando se dirigiam no caminho  para Amarante, pelas tropas de Silveira , formadas por eclesiásticos, milícias, ordenanças  e populares , que atacaram com golpes certeiros de toscos mosquetes e de balas de  caçadeira , utilizadas na caça ao javali e ao lobo, e com blocos de rocha, de lascas  contundentes , atiradas de encostas apertadas .Loison que almoçava  em Mesão Frio ,  calmo e sereno, foi informado que as suas tropas estavam a ser atacadas , também  pela retaguarda.Resolveu , por isso , retroceder e no lugar de Santinho , perto da Régua, sofreu pesadas baixas , morrendo muitos militares franceses  , entre os quais o seu  próprio ajudante. De seguida Loison, na manhã do dia  22 de Junho ,cercou a Régua que foi saqueada, e  a sua escassa população, parte dela tinha fugido para os montes, massacrada pelas tropas francesas. De seguida , passou o rio Douro  e atravessou Lamego de regresso a Almeida  de onde tinha saído, depois de fracassado o objetivo  de chegar ao Porto . No final , do mesmo dia , chegou à Régua, a coluna de Amarante, e à noite a de Guimarães , que perseguiram as tropas francesas  de Loison até Lamego. Na pressa , ao atravessar o Douro, Loison abandonou vários troféus , objetos de ouro e prata, bagagens  , livros, armas e  três fardas de General. Uma dessas fardas foi entregue  como troféu, em sinal de reconhecimento , ao Convento de São Gonçalo de Amarante.

        O  espírito da rebelião das gentes de Amarante não esmoreceu.  Em 23 de Junho de 1808 ,constitui-se uma Junta local contra os franceses , para governo e defesa da Vila , à semelhança do que aconteceu noutras partes do Reino.

Essa Junta tinha como Presidente o Prior de São Gonçalo , Frei Joaquim  de S. José  Cardoso , e como  adjuntos Francisco Xavier Ferreira de Sousa Gavião Pessoa e Luís de Macedo da Cunha Coutinho, e  como secretário o  Dr . Custódio da Silveira de Bessa Negrão.     

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Paulo Barreira

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