Um Café Com… Paulo Taful –

Paulo Taful, maestro, poeta e encenador natural do concelho de Sintra lançou há dias o seu quinto livro de poesia. “Celebrar a Vida” sai na altura em que comemora 50 anos de vida e 35 de carreira artística. Pode dizer-se que este é um livro da “meia idade”?

 “Quando eu fiz quarenta anos houve alguém que me disse que eu estava na meia idade, o que de facto é correcto, tendo em conta que a maioria das pessoas vive por volta dos oitenta anos. Eu não sei o que é isso da meia idade, eu sei que há uma coisa que eu tenho a certeza, é de que eu não quero ser jovem com vinte anos outra vez, isso eu tenho a certeza que não. Mas toda a gente marca os cinquenta anos como a meia idade, muita gente entra na meia idade e tem crises existenciais, eu não penso em nada disso, penso no presente. E este livro marca o presente, celebro a vida, o estado em que estou, que é estar vivo, recordando o passado com muita gratidão, com muitas coisas boas e algumas menos boas que também é preciso que aconteçam para nós conseguirmos caminhar, e caminhar até de uma forma mais forte, com mais certeza e mais coragem, porque é aí que nós aprendemos que a coragem é fundamental na nossa vida. Se isto é um pensamento de meia idade, então sim estarei com a certeza que a vida vale a pena. Vale a pena esgrimi-la, vale a pena senti-la e vivê-la. E, acima de tudo estou muito grato por tudo o que aconteceu e só peço a Deus que me dê sempre força para continuar a criar, a escrever e a fazer com que as luzes do palco da minha vida se continuem a acender.”

No dia 20 estiveram algumas centenas de pessoas no lançamento do livro. Fala-nos um pouco desse dia, do que aconteceu e das emoções…

“O que aconteceu foi um milagre, eu tenho sempre medo que eles não apareçam e eles são as pessoas que eu convido e que quiseram estar. Quando cheguei à sala e vi 210 cadeiras eu fiquei muito assustado, apesar delas lá estarem porque eu pedi que assim fosse, mas fiquei muito assustado com medo que ficassem só meia dúzia preenchidas, depois fiquei novamente assustado passado umas horas, porque estava à porta a receber as pessoas porque faço questão disso e comecei a achar que as cadeiras não chegavam.

Portanto, eu fiquei e fico muito feliz, de facto a felicidade não cabe numa só palavra, mas aquele foi um momento profundamente feliz… É a realização, porque quando se escreve um livro, nós queremos que o máximo de pessoas possam tomar conhecimento do livro. Muita gente comprou o livro, muita gente ouviu as minhas palavras, ouviu outras pessoas que disseram de uma forma teatral as minhas palavras, ouviu a música que eu escolhi, porque a música é fundamental na minha vida e, acima de tudo eu pude oferecer-lhes uma paisagem, uma paisagem que me acompanha desde que nasci, que é de facto o mar da praia do sul na Ericeira. Foi um momento feliz, e se isso é realização então eu, hoje estou profundamente realizado. Sempre com muito medo de não conseguir agradecer às pessoas o bem que me tratam, mas eu tento chegar-lhes e dar-lhe o melhor que eu tiver cá dentro.”

Tens noção de que para um livro de poesia, um lançamento como o que aconteceu é um feito quase único…

“Eu sei que infelizmente isso é verdade, mas dizer que foi um feito único dá-me uma importância que eu não tenho e não mereço, de todo.

Mas de facto aconteceu e tem acontecido nos meus livros anteriores. Eu tenho muita sorte… Agora eu tenho muita pena é que muitos e tão bons poetas que dizem e escrevem coisas extraordinárias quando lançam os seus livros têm muito pouca gente na sala e os livros chegam a pouquíssimas pessoas e, claro, que a satisfação de quem escreve nunca é muito grande. Não sei o que dizer em relação a isso… Estou e sinto-me profundamente feliz. Só desejo que os outros poetas, todos sem exceção, possam ter a mesma sorte. Porque escrever poesia é um ato de amor. E um ato de amor só faz sentido se for como um canteiro com flores, que toda a gente pode ver, que se sente…”

O Teatro é uma paixão?

“Sim desde sempre… eu conheci o teatro em casa, ao ver na televisão pessoas que falavam de uma forma diferente, eu nasci em 1969 e a minha infância ou a consciência da infância acontece em 73, 74, 75 e havia muito teatro na televisão e havia também o teatro radiofónico. Lembro-me das noites das férias na Ericeira, a casa não tinha televisão e nós ouvíamos teatro radiofónico à hora de jantar. E eu não percebia nada, mas gostava muito. E isso depois foi sendo desenvolvido com a ópera ou o TV Palco, um programa que passava na RTP1 há muitos anos e, depois vieram os “Filhos do Povo” aos seis anos na minha terra Montelavar, que me fez perceber que havia uma coisa chamada teatro na qual as pessoas podiam ter grandes emoções e, aí veio a vontade muito grande e logo na adolescência ingressei no grupo de teatro.”

Pergunta difícil. Como encaras a realidade cultural no nosso país?

“A pergunta é difícil e é polémica, mas só é difícil e polémica se se continuar a achar que a cultura só se faz se os senhores do governo quiserem.

Eu nunca tive apoios de nada para nada… tenho apoio das instituições para as quais trabalho, mas eu fiz este livro, porque era uma necessidade e fi-lo por mim. Se é fácil? Não, não é fácil! Mas quando se quer faz-se.

O grande problema é que muitos artistas do teatro, da musica e da escrita ficam à espera de grandes subsídios para fazerem coisas… Trabalhem, porque se trabalharem conseguem fazer coisas… Claro que as pessoas que nos governam têm uma grande responsabilidade, mas a história ao fim de tantos séculos já nos diz que eles nunca fizeram nada pelas pessoas da arte, ou pela arte, ou só fazem se houver interesse. Portanto, ao fim de tantos séculos, se continuamos a bater na mesma tecla é porque somos todos uma cabada de burros. Portanto se querem  fazer teatro, façam… Não têm grandes salas, têm pequenas mas façam… Eu também gostava de fazer grandes musicais e grandes peças de teatro em salas enormes e cheias de dourados… Não tenho… Faço teatro num palco inventado, com um pano que às vezes encrava, com projetores que piscam… mas com pessoas que têm muita vontade. E é isso que eu acho extraordinário.

Se a pessoa quer, faz, não faz grande, faz mais pequeno, mas faz. Porque se se é artista, tem que explodir em arte, seja ela de que maneira for. E é isso em que eu acredito.

Depois há os eventos para as elites, os músicos, cantores, atores das elites, isso há e continua a haver e depois há os outros que existem como artistas, porque se não existirem morrem e têm que fazer coisas, ir à luta e fazer.

Com trabalho as pessoas conseguem fazer tudo, agora se estiverem À espera que alguém lhes bata à porta pra dizer “deixa-me ver o teu livro, a tua música, o teu trabalho”, claro que ninguém faz isso. Por isso há que trabalhar, há que deitar muitas vezes às 5 e 6 da manhã, esquecer muitas vezes a família, esquecer muitas vezes de nós próprios, mas só assim é que se consegue alguma coisa.

A realidade é aquela que o povo deseja, mas também é aquela que os artistas têm desejado, isto é polémico mas é aquilo que eu penso.”

Tens sonhos por realizar?

“Eu nunca fui uma pessoa de sonhos. Há coisas que eu gostava e há coisas que e eu não gostava e, normalmente as coisas que eu gostava acontecem sem me aperceber como nem porquê… e as coisas que eu não gostava às vezes também acontece, o que é uma chatice (risos)…

E há coisas nas quais eu nem pensava e acontecem como se fosse um sonho sem eu nunca ter achado que é um sonho.

Claro que há muitas coisas por realizar. Gostava de encenar muitas coisas, a triología do Federico Garcia Lorca, por exemplo, gostava de escrever mais coisas e muito melhores de preferência, de escrever um livro só de contos e, que a minha vivência me desse a oportunidade de escrever muito mais poesia, de como músico poder dirigir várias coisas… Mas acima de tudo gostava de, como pessoa ser cada vez mais e melhor. E de conseguir apurar em mim uma coisa que falta à humanidade, que é a bondade e o sentido de perdão, porque aíe é que eu acredito, que a vida se pode espelhar e valer verdadeiramente a pena.

Mais que os sonhos, há a vida. E a vida é para ser vivida. Porque os sonhos nascem e morrem todos os dias…

Não sou uma pessoa de sonhos, sou uma pessoa de trabalho e, de todos os dias!

E penso que sou uma pessoa de, à minha maneira sensibilidade e, se o sonho existe, que ele se construa todos os dias!”

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