Um café com… Alda Maltez

Lembra-se de quando ia ao pão com um saco de pano? E de como ficávamos encantados com aquele desfile de verdadeiras obras de arte feitas pelas mãos das nossas mães e avós? Uns de retalhos, outros bordados, outros pintados… A ida ao pão, além de ser uma rotina do dia a dia, como o é hoje, era também um encontro onda cada uma com o seu saco, mais ou menos trabalhado, ia cumprir um ritual quase que sagrado.
Motivada por restaurar essa tradição e por um meio ambiente mais sustentável, Alda Maltez deixou os seus vários part-times e dedicou-se a 100% à sua nova empresa “O Saco do Pão”.
Todos os dias são utilizados milhares de sacos de papel para colocar o pão que compramos nas padarias e pastelarias, que acabam em caixotes do lixo. Alda apercebeu-se desta situação ao observar os hábitos das pessoas à sua volta mas refere que “à medida que vamos amadurecendo vamos ficando também mais alerta para as questões ambientais”.
“As pastelarias, principalmente uma daquelas que eu frequento diariamente, chegam a gastar 1500/2000 sacos de papel por dia, fora depois o saco de plástico para levar o saco de papel.” Foi desta forma que percebeu que poderia fazer algo para mudar este hábito já tão normal no nosso consumo diário.
O projeto que nasceu no início do ano, foi lançado a 17 de junho, um ano depois dos incêndios que assolaram o nosso país e que demonstraram a grande capacidade que os portugueses têm de se unir. Para a empresária, esta data acabou por fazer sentido “pela simbologia que tinha e também é claro com a esperança que as pessoas se mobilizassem”. No entanto, sabe que a dimensão de apoio a esta causa não será a mesma nem com a mesma rapidez, mas acredita que isso acabará por acontecer.
No que respeita às dificuldades no decorrer deste curto espaço de tempo a sua visão é positiva, pois não encara como dificuldades mas sim uma sucessão de desafios, que considera ser “normal de fazer uma coisa inovadora, uma coisa nova, algo que até agora ainda não foi feito, não desta forma”. Sendo que para o seu desenvolvimento conta apenas com o apoio do seu filho na construção do site do projeto e tudo o resto é feito apenas por si.
É na Ramada, em Odivelas que todo o trabalho é desenvolvido no entanto é através de pontos de venda ou online que é possível adquirir este produto, valor do qual dez cêntimos revertem a favor da reflorestação. Os pontos de venda são na sua maioria padarias e pastelarias, mas há também algumas casas de artesanato e mercearias interessadas em fazer parte deste projeto, sendo que neste momento são cerca de doze com previsão para a entrada de mais cinco. “Eles reduzem gastos, nós reduzimos a nível geral o consumo e havendo menos desperdício penso que ganhamos todos nesse sentido”, explica Alda.
Relativamente às vendas online é possível fazê-lo através de e-mail ou Facebook e futuramente poderá vir a ser feito através do site, uma vez que por enquanto ainda não se encontram ativas as funcionalidades de compra e pagamento.
A empresária considera que o feedback em relação ao produto tem sido positivo, mas que apesar de todas as pessoas dizerem que é uma boa ideia, nem todas participam. Para além disso a aceitação por parte dos pontos de venda inicialmente também não foi fácil. Se por um lado “algumas pessoas aderem logo, outras pessoas nem deixam conversar”, funcionando um pouco como vendas em que é preciso insistir. Contudo acredita que quantos mais forem os pontos de venda e quanto mais conhecido o produto será mais fácil e que “vão começando a abrir as portas”.
Este projeto que também se chama “Movimento Ecológico Nacional” não fica por aqui e são já várias as novidades em preparação. Considerando ter de “começar com as crianças para as crianças educarem os pais”, foi já desenvolvida uma mascote para as escolas, o “Panito” e em breve será lançado um saco pequeno para os lanches. Também já há ideias para “poupar os sacos do açúcar e também os panos para os tabuleiros de papel” mas apenas quando o saco do pão estiver bem integrado nos hábitos, explicou Alda.
ĹA nova empreendedora revelou também algumas das suas preocupações ecológicas, nomeadamente acerca do lixo que é produzido diariamente no planeta, afirmando que “tentamos fazer de conta que não está a acontecer nada”. Acrescenta ainda que “se nos começamos a preocupar ao nível da preocupação que merece não fazemos mais nada, que é aquilo que eu estou a fazer, não faço mais nada neste momento que não seja fazer isto”, pois como já referido abandonou todas as suas atividades para se dedicar por completo ao “O Saco do Pão”. Nos seus pontos de venda aproveita assim para tentar fazer um trabalho de consciencialização, revelando que as pessoas “não têm ideia de quanto é que se gasta” apenas em sacos de papel.
Alda Maltez tem convicções fortes quanto ao reaproveitamento de lixo, explicando que “100% é difícil mas não é impossível, já há países com um compromisso muito grande”. Quanto aos portugueses acredita que embora não seja fácil que é possível, sobretudo os mais jovens que adotem um espírito mais ecológico, sublinhando que “as coisas têm mesmo de mudar porque o planeta também não resiste”.

Inês F. Costa

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Entrevistada por Hugo Janota e Rômulo Ferreira

1 comentário

  1. Parabéns pelo projeto …eu sou do tempo de levar a saca de pano á padeira…e estamos todos em casa mudar os nossos hábitos de vida para produzir menos resíduos.

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