Sucedeu Festival – Uma Coisa Que Ninguém Vai Ler – Crónica de Nuno Pontes

Olá, agradáveis seres humanos.

Estão bons? Têm o banhinho em dia? Óptimo, é isso que a gente quer e aprecia. É verdade, primeira semana de Março e temos direito a dois acontecimentos francamente importantes, sendo que o principal é, obviamente, o meu regresso à vossa companhia com mais uma série de extraordinárias croniconetas. O segundo acontecimento trata-se, efectivamente, do Festival da Canção. Não conseguimos viver sem ele, mesmo que haja cantigas candidatas interpretadas por modelos vindas de Paris que representam perfumes em semanas da moda muito menos interessantes que o Festival da Canção.

Antes do início desta final, uma questão fracturante se impunha: qual a hashtag a usar no Twitter? Utilizadores da rede social dividiram-se entre #festivaldacanção, #festivaldacanção2019 e o mítico #festivaldacancao, desenvolvido por seres que não sabiam ser possível inserir acentos e cedilhas em hashtags. O certame principiou, e tivemos direito a um número de abertura com Júlio Isidro, uma Margarida Mercês de Melo retirada da prateleira, um Vasco Palmeirim a cantar – imaginem que levávamos Palmeirim a Israel. Mal por mal, preferia Tessa, mítica intérprete de “Ave do Paraíso” na edição de 1983. De 2018 para 2019, pouco mudou, mas o que mudou foi para melhor: os apresentadores aprenderam a dizer “green room”. Longe vão os tempos do “gween woom” – quer dizer, foi no ano passado.

Os Calema abriram as hostilidades com uma cantiga cuja letra inclui “levo-te comigo antes que amanheça”. Aproveitem e levem a cantiga convosco. Para bem longe, de preferência. Seguiu-se Mariana Bragada com a obrigatória entrada no Festival sobre o mar. Um estudo publicado pela famosa empresa sueca Fånga Svansen revela que noventa e nove em cada cem canções sobre o mar são fezes, e em relação a “Mar Doce”, já dizia aquele célebre ditado popular: “há mar e mar, há ir e… vai, Mariana. E deixa a cantiga ir ao fundo.” Mariana é uma pessoa para quem tudo é incrível. Para nós nem por isso, mas para ela é. Bom para ela. Matay subiu a palco e, com a sua enorme voz, interpretou dignamente uma cantiga de um qualquer filme Disney dos anos noventa. É um momento bonito, mas é só isso.

Surma fez coisas com “Pugna”, e “fez coisas” é capaz de ser o termo correcto. Não me arrisco a dizer que seja uma canção – acho que ninguém sabe bem o que aquilo é, o que poderá ter levado o júri a atribuir-lhe doze pontos na segunda semifinal. Para mim tratou-se de uma espécie de derrame cerebral a suceder em directo, o que explica os ais ao longo da performance. Surma assumiu que nunca na vida pensou estar na final do Festival da Canção. Nós também não.

NBC trouxe “Igual a Ti” e, tal como na segunda semifinal, o homem deixou tudo em palco, excepto a afinação, que a certa altura lhe fugiu. Como se isto não lhe bastasse, a produção do Festival escolheu o exacto momento da desafinação como destaque – “ora tomem lá o número para votar no NBC… e a desafinação do homem”. Agora só quero ver como se safa o artista com nome de canal americano de televisão quando cantar “dá-me a tua mão” a um maneta. Seguiram-se os Madrepaz, com “Mundo a Mudar”, uma cantiga bonita, com belas harmonias e, lembrando-nos que estamos no Carnaval, pinturas faciais com mensagem.

Conan Osiris. Meu Deus. Que performer. “Telemóveis” é algo incrível, mas a performance vale pelo seu todo: a interpretação do Tiago, a dança do João (incluindo a extraordinária queda – se fosse eu, partia sete partes do corpo), a própria produção daqueles três minutos de Eurovisão em Portugal, e a canção em si é muito mais do que parece – há ali muito trabalhinho. Portimão viu valor em Conan Osiris, e como tal, ofereceu-lhe a maior ovação da noite. O desfile de canções concorrentes terminou com “Inércia”, que é uma cantiga… que o é. E pronto. Foi-se a Inércia, voltou a Cautela e com ela veio o Joker. Ou o Palmeirim.

Entre as cantigas a concurso e o anúncio dos resultados, houve um longo período de tempo durante o qual as pessoas puderam votar, ir à casa de banho efectuar várias Pugnas e sofrer com os arranjos que Nuno Gonçalves fez para três cantigas vencedoras de Festivais. “Esta Balada Que Te Dou” é das minhas cantigas favoritas do Festival. Nuno Gonçalves assassinou a cantiga, e Armando Gama estava visivelmente confuso. “A Cidade (Até Ser Dia)” foi só estranha. E nem vamos falar de “Senhora do Mar”, transformada em música de elevador. Vocês lembram-se que o Nuno Gonçalves, autor destes arranjos, foi também autor daquela cena dos Viva La Diva? Lá está. Nuno Gonçalves vingou-se da derrota no Festival da Canção com três arranjos francamente terríveis. Consigo fazer melhor com os ritmos automáticos do meu teclado. Tivemos nós Cais Sodré Funk Connection e Kumpania Algazarra nas semifinais para levarmos com isto na final.

Ainda tivemos tempo para as novas cantigas de Isaura e Cláudia Pascoal, bem como o regresso de “O Jardim”, cuja relva continua muito ralinha, mas após ter ouvido boa parte das cantigas deste ano, é possível ter ganho duas ou três florzinhas meio murchas e uma pequenina fonte que não funciona. Cláudia Pascoal estava extremamente parecida com Armando Gama, só que com mais cores no cabelo. Não esquecer também que Armando Gama levou Valentina Torres para casa, enquanto Cláudia levou um último lugar na Eurovisão. Pois.

No final, ganhou Conan Osiris, para gáudio de muitos e choque dos comentadores no Facebook. Conan vai a Israel. Nunca a Linha de Sintra esteve tão próxima da Faixa de Gaza. E não se esqueçam desta hashtag: #ConanEscangalhaIsrael.

Até breve, seres.

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